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BLOG FATOR V

EXPERIÊNCIAS SUSTENTÁVEIS E DE BEM-VIVER

Os 4Rs da Sustentabilidade 4.0

Se concordamos que estamos tratando desde o início da construção de um novo mindset (ou no bom português, uma nova mentalidade) sobre a Sustentabilidade como um todo, devemos estar de acordo também que a evolução e a revolução estão na forma de ENXERGAR a realidade e de PENSAR sobre tudo o que está posto e engessado historicamente. Arrisco dizer que para ser 4.0 é necessário ter a capacidade de REPENSAR tudo!


Para que possamos dar os primeiros passos na direção de uma nova mentalidade sobre a Sustentabilidade, julgo importante relembrar que já existem pelo menos 7 Rs trabalhados há bastante tempo, sendo eles: · Repensar; · Recusar; · Reduzir; · Reparar; · Reutilizar; · Reciclar; e · Reintegrar


Esta proposta de trabalho pautado em apenas um ou vários destes Rs tem sido fundamental para todas as conquistas e mudanças de hábitos até aqui, porém, elas ainda guardam uma relação fortemente associada ao modelo de sociedade pautado no consumo-descarte, e não parecem ter sido suficientes para afetar massivamente as pessoas ou a estimular quebra de paradigmas.


Talvez haja uma explicação semântica se entendermos que apesar de os 7Rs serem verbos e, portanto, indicarem AÇÃO, eles não apontam quais os agentes responsáveis por tais ações em si, embora eu e você saibamos que eles se aplicam a todos nós.


Entendo, portanto, que precisamos de algo mais direto, assertivo e que aponte as devidas responsabilidades, no sentido não apenas da mudança de hábitos, mas sim na mudança de paradigmas e modelos de sociedade.


Com base nisso, minha proposta está endereçada aos agentes específicos da sociedade, cujos propósitos, objetivos e/ou condutas deverão ser repensados de preferência de forma concomitante.


São eles: 1. As pessoas comuns; 2. Os empresários; 3. Os gestores governamentais e não-governamentais; e 4. Os legisladores.



Para cada um desses agentes, uma missão (oportunamente também iniciadas com a letra “R”) para dar início a uma verdadeira mudança, rumo a Sustentabilidade:


1. Reconexão Pessoal

2. Remodelagem Empresarial

3. Representatividade Institucional

4. Renovação Legal


Na sequência falo um pouco sobre as motivações e argumentações para a escolha destes “4Rs” e seus respectivos agentes de mudança.


RECONEXÃO PESSOAL

Diz respeito à Sustentabilidade no seu sentido mais amplo, tanto por convidar todas as pessoas (sociedade civil, empresários, gestores públicos, políticos, artistas, seja qual for a caixinha em que se colocarem) a se reconectarem com a natureza, quanto por se tratar de uma ressignificação do valor da VIDA em todas as suas formas.


Considerando que em um dado momento da história da humanidade "nos perdemos" de nossa essência e passamos a perceber a natureza como um mero produto (ou recurso natural), sobre o qual temos domínio e que está à nossa disposição para ser usado de qualquer jeito, é chegado o momento de nos reconectarmos e repensarmos nossas escolhas e ações cotidianas, lembrando que somos dependentes dessa natureza e que não podemos continuar negligenciando-a, explorando-a e destruindo-a.


A visão sistêmica da vida é o que devemos buscar com a máxima urgência por meio de amplo processo colaborativo de Ecoalfabetização onde todos, inclusive os adultos, deverão aprender a "ler" o meio ambiente e reaprender a viver dentro de um ecossistema planetário.


REMODELAGEM EMPRESARIAL


Eu não deveria precisar mencionar aqui que estamos na era da informação e que empresário algum poderá alegar que desconhece as urgências ambientais do planeta – ou pelo menos de sua cidade –, nem tampouco a imprescindibilidade de construir uma boa reputação perante a opinião pública, fornecedores e clientes no que se refere à sustentabilidade. É inaceitável que empresas ainda continuem insistindo em velhos modelos insustentáveis, "dando um jeitinho" ou simplesmente tentando burlar as leis para não cumprirem suas obrigações ambientais e sociais.


Temos visto no Brasil grandes empresas perderem credibilidade e terem sua reputação manchada por motivações que vão desde a morte de centenas de pessoas por um rompimento de barragem, até a morte de um cachorro assassinado por um segurança que certamente não teve a devida orientação do setor de Gestão de Pessoas (ou RH, como queiram), que por sua vez também não deve considerar as questões ambientais relevantes, pois nunca foram Ecoalfabetizados.


Você poderia até me questionar: porque o "R" das empresas não é o de Responsabilidade? A resposta é simples e direta: Prefiro falar de remodelagem e reputação, porque isso as empresas conseguem valorar como investimento, enquanto a responsabilidade ambiental ainda é vista como custo ou mera obrigação.


Mas fiquem tranquilos, pois geralmente, para uma empresa conseguir construir uma boa reputação, é preciso antes de tudo que ela seja responsável durante muito tempo, afinal reputação não é algo que se constrói da noite para o dia. Ou será que as empresas ainda acham que o famigerado greenwashing é "sustentável" ao longo do tempo?


REPRESENTATIVIDADE INSTITUCIONAL


Começo esclarecendo que apesar de entender que a gestão pública também é um sistema, enfatizo aqui a importância da representatividade dos órgãos de gestão ambiental e de licenciamento.


Fator motivador: na área ambiental as instituições públicas não estão conseguindo resguardar a sociedade dos riscos ambientais e dos desmandos de toda ordem sobre a natureza e sobre a qualidade de vida nas cidades. E não importa se a legislação é rígida ou frouxa, pois o que está falhando são as pessoas envolvidas, seja por ausência de visão sistêmica, seja pela escolha equivocada de metodologias, seja por motivos obscuros os quais e não vou perder tempo em mencionar.


Eu poderia citar incontáveis razões para isso, mas preciso focar no que a Sustentabilidade 4.0 pode trazer de inovação nesse sentido. De todos os pontos, vou mencionar aqui três aspectos que considero cruciais:


· Primeiro aspecto: Órgãos gestores de meio ambiente precisam renovar suas metodologias de avaliação de impactos e riscos ambientais urgentemente;


· Segundo aspecto: Órgãos ambientais precisam ser geridos por profissionais que entendam de meio ambiente e gestão, ou pelo menos por gestores que deem autonomia às suas equipes. Não se concebe mais que gestores destes órgãos sejam mera indicação política.


· Terceiro aspecto: Órgãos de gestão ambiental precisam INVESTIR dinheiro, tempo e pessoas em EDUCAÇÃO AMBIENTAL e ECOALFABETIZAÇÃO.


Considero inaceitável que no Brasil seja tão natural investir milhões em obras de infraestrutura, ou em megaprojetos arquitetônicos e em construção de vias e, ao mesmo tempo, sempre que se fala em Meio Ambiente ou Educação Ambiental, nunca há recursos financeiros disponíveis ou equipes em quantidades razoáveis.


A cegueira sobre a importância da educação ambiental é tão grande quanto os problemas que estas mesmas instituições precisarão enfrentar e responder enquanto não admitirem que uma possível solução está na raiz que é a ausência de Ecoalfabetização.


RENOVAÇÃO LEGAL


Essa é tão arriscada quanto necessária. Arriscada porque no Brasil criamos um sistema de leis considerado eficiente em todo o mundo, mas que pouco a pouco vem sendo completamente desvirtuado pelas flexibilizações das leis, para atendimento de interesses específicos, geralmente nada coletivos, demonstrando o quão frágil podem ser nossas leis.

Para além desse fator em si, o que quero mencionar na Sustentabilidade 4.0 é a necessidade de renovação e revisão quanto à visão antropocêntrica de nosso ordenamento jurídico.


Enquanto no mundo muitos países imprimem uma visão mais ecocêntrica em suas leis e até em suas Constituições, como no caso do Equador, no Brasil o assunto agora que começa a ser discutido por alguns visionários presentes no sistema jurídico.


A necessidade de mudança de algumas leis ambientais se evidencia em casos de tragédias como as ocorridas em Mariana e em Brumadinho, onde além das perdas de vidas humanas, da fauna e da flora, perdemos também o Rio Doce e o Rio Paraopeba.


Por conta de situações como estas, considero relevante mencionar duas abordagens bem interessantes que venho acompanhando no Brasil: a primeira delas é o surgimento da pauta denominada ecocídio levantada principalmente por Polly Higgins, também conhecida como “advogada da Terra”; e a segunda pauta seria a dos Direitos da Natureza, que também tem suas representações brasileiras, sendo a mais notável delas a juíza e professora Germana Morais.


São, portanto, estes os 4R que indico como ponto de partida para a construção de uma Sustentabilidade 4.0, baseada em conhecimento, informação, reconexão, ecoalfabetização, remodelagens, renovação, representatividade e revalorização da vida.


Magda Maya

Geógrafa e Dra. em Desenvolvimento e Meio Ambiente

Redes sociais: @magdamaya.ambiental


Este artigo é uma degustação do Livro Sustentabilidade 4.0

Vendas no site: www.magdamaya.com.br/livrosustentabilidade